Encontros de Didgeridoo em Lisboa – Novembro


Olá a todos.

Quarta feira é já o próximo encontro de didgeridoo e quero partilhar convosco um pouco do que vai acontecer.

Se tocamos e estamos fascinados com este instrumento que é o didgeridoo devemos conhecer e compreender um pouco melhor o povo que durante milhares de anos o utilizou de forma tradicional. Fala-se muitas vezes no regresso às raízes e é um pouco isto que eu proponho para esta quarta feira, conhecermos um pouco melhor o que é o didgeridoo tradicional, a sua sonoridade, as nuances nas composições tradicionais.

Para compreender o som do Yidaki (nome usado tradicionalmente) é preciso entender toda a cultura que o rodeia: quem são as pessoas que o usam, qual a musicalidade que lhes pertence, como celebram aquilo que lhes é especial e sagrado, como entendem o mundo, quais as diferenças em relação a nós, etc etc. Muito se fala do povo Yolngu (como os aborígenes de Arnhem Land se chamam a eles próprios) ouvem-se muitos mitos e muitas histórias mas no fim de contas é muito difíciil ter uma percepção clara de todo o povo aborígene, a Austrália é um continente muito grande e os aborígenes estão divididos em muitos grupos e clãs e todos muito diferentes entre si.

Falar de didgeridoo tradicional é um risco. Isto porque em todos os clãs de Arnhem Land encontramos uma especificidade no modo como tocam, nos ritmos que passam de geração em geração, no tipo de instrumento que usam e sobretudo no estilo individual de cada tocador de Yidaki. Podemos pensar nisto como quando se ensina uma criança a falar, ela vai falar a mesma língua mas é inevitável que a faça soar de modo único, todos temos maneiras diferentes de falar, depois há os sotaques, depois os dialectos e depois os idiomas. Fazendo um paralelismo com o tocar didgeridoo nós tocamos um idioma diferente do tradicional, ou seja é como uma língua diferente da nossa, depois consoante as regiões temos os sotaques e por fim cada tocador tem o seu modo de se expressar. O que eu quero dizer com isto é que não se pode falar de um estilo tradicional mas sim de várias formas de tradicional e de vários modos de o sentir.

Djalu Gurruwiwi é um nome que toda a gente conhece, melhor ou pior, todos sabemos que é uma autoridade em termos de tocar e construir Yidaki em Arnhem Land e é também um dos líderes aborígenes mais conhecido pelo seu trabalho: músico e construtor dos instrumentos utilizados pelos Yothu Yindi, viagens pelo mundo a dar workshops de estilo tradicional, um verdadeiro embaixador do didgeridoo. Mais informação em: http://www.ididj.com.au/education/profiles/djalu.html e http://www.djalu.com/biography.html

Vendo no didgeridoo uma forma de expressão e uma forma de fazerem chegar a sua cultura mais longe alguns líderes aborígenes decidiram abrir parte do seu conhecimento aos músicos interessados no estilo tradicional. Em 2002 aconteceu na Alemanha um festival com a presença do Djalu e da sua família, o Rripangu Yirdaki Festival http://www.didgeweb.com/photobook/djalu2002_e.html onde durante vários dias se fizeram, pintaram e aprendeu-se a tocar didgeridoos tradicionais e também danças.
Aproveitando esta presença na Alemanha alguns homens do clã Galpu juntamente com o Djalu foram para um estúdio gravar músicas tradicionais do clã. Estas músicas não fazem sentido fora do contexto que servem que é a dança e por isso enquanto se gravou a voz, as clavas e o didgeridoo também se dançava. O que temos é como uma gravação de campo em que se ouve as pessoas a dançar mas também se ouve a voz, as clavas e principalmente o didgeridoo com uma qualidade excelente. Este registo é mais uma ferramenta na manutenção de uma cultura em crise por causa do alcool e outros problemas sociais, é uma forma de mostrar às gerações seguintes como é que um mestre do Yidaki tocava.

Durante cerca de uma hora, a começar pelas 20h, o CD vai estar a tocar numa das salas da Crew Hassan, não vai ser uma sala com música ambiente mas sim uma sala de escuta, mesmo uma sala de estudo. Proponho que se ouçam os vários pormenores: a relação da música com o canto e com a voz dos que dançam, os ritmos do didgeridoo em relação com os das clavas, a musicalidade de cada tema: curtos ou longos, ritmos diferentes daqueles a que estamos habituados, o CD está gravado com o stéreo a colocar o didgeridoo numa coluna e o resto noutra, se o som assim o permitir experimentar ouvir mais perto só da coluna do didgeridoo para perceber as nuances, mas também ir ouvir o outro lado que é o mais importante. a voz e a percussão, relcaionar a fonética e a forma de cantar com os sons produzidos no didgeridoo.

Um conselho: não ouvir 5 minutos e já está ou começar a falar mas sim dar tempo para este tipo de música entrar no ouvido. Não temos todos de gostar de didgeridoo tradicional mas é bom reconhecer a força e intensidade quando se ouvem ritmos passados de geração em geração e tocados com alma, os tocadores de didgeridoo deste registo não tocam por profissão ou por divertimento, tocam porque é essa a função deles, é uma coisa mais alta e mais séria do que tocar música, é uma responsabilidade.Vai estar disponível uma cópia da capa do CD com os títulos e significados de cada tema.
Mains informação sobre o CD: http://www.manikay.com/albums/diltjimurru.shtml

Quando o CD acabar e se as condições técnicas assim o permitirem tenciona passar um documentário curto de cerca de meia hora, as pessoas que estiveram na residência de didgeridoo já o viram, sobre o Yidaki, um documentário com pessoas como o Djalu, Larry e Si. Aconselho-o mesmo àqueles que já o viram porque depois de perceber um pouco melhor o que é o didgeridoo tradicional há coisas que se percebem melhor, são pormenores que estão no documentário mas que passam um pouco despercebidos na primeira visualização.

Como também compreendo que as pessoas vão aparecer para tocar didgeridoo e assim espero que aconteça eu proponho que se utilizem as duas salas que “sobram” para esse efeito para que o som não se misture.

Apareçam!
Rodrigo

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