O Resgate – que história!


Eu tenho a sorte de conhecer alguns dos mais talentosos artistas portugueses. O Hugo Lima é um grande fotógrafo de concertos e espetáculos e não só. Numa das suas idas à Índia ficou sem uma mochila… que acabou por reaver. Adoro esta história e tinha de a trazer para este blogue!

hugo-lima-india-resgate O resgate

A história que se segue é digna de ser partilhada. Inauguro assim o diário desta viagem que como todos os anteriores, terá com certeza imensos episódios insólitos, curiosos, caricatos… e sempre com aventura e descoberta.
Poderia ir directo ao assunto mas não posso. Não poderia falar do roubo da mochila sem antes falar do porquê de não ter dormido na mesma carruagem em que a deixei, nem poderia falar do porquê de não ter dormido na mesma carruagem, sem antes falar do porquê de ter comprado um segundo bilhete para dormir numa outra carruagem quando já havia comprado um bilhete para dormir na mesma carruagem em que a minha mochila ficou. E ainda mais terei de recuar, são assim estas aventuras da Índia, quando começo a explicar um porquê, reparo que tenho primeiro que explicar o porquê de vários porquês que o antecedem para me fazer entender.

Tendo eu noção de que já não iria a mais lugar algum além daquele pequeno paraíso em que me encontrava no final da minha viagem em Fevereiro de 2010 – numa remota praia na vila de Gokarna -, decido com cerca de 10 dias de antecedência comprar o bilhete de comboio para Mumbai, para uma longa viagem de cerca de 17 horas até ao aeroporto (que se viria a prolongar por quase +1 dia).
Qual o porquê de comprar uma viagem de comboio com tal antecedência? Porque na Índia os indianos compram as viagens com cerca de 1 mês de antecedência, sendo que para os dias festivos chegam mesmo a comprar com 91 dias de antecedência (o máximo permitido). Daí que, sendo a linha de comboio mais próxima que por ali passava uma das mais concorridas (Mumbai – Goa – Margão), mesmo apesar de ter comprado o bilhete com cerca de 10 dias de antecedência, já aquele comboio, assim como os comboios da mesma linha para os 30 dias (!) seguintes, se encontrava esgotado. Comprei portanto um bilhete para um comboio que estava esgotado. Pois é, na Índia compra-se um bilhete para viajar no comboio sem se ter a certeza de que chegada a data, terá lugar. E porquê? Porque da mesma forma que milhares de pessoas compram com bastante antecedência o bilhete esgotando os comboios, também os cancelam com o aproximar da data uma vez que não perdem nada com o cancelamento (reembolso 100%) ou correm um risco de perder alguns cêntimos caso o façam próximo ou na própria data.
Existe assim uma lista de espera. Quando se esgota uma classe de um comboio, inicia-se uma lista de espera – WL (Waiting List) – mencionada no bilhete como ## / ## sendo que os primeiros dois algarismo referem-se ao lugar na lista de espera em que iniciei a espera e os dois outros referem-se ao lugar em que me encontrarei nessa lista com os cancelamentos ocorridos até à data. Com o passar dos dias vou verificando o status da minha reserva e os dois últimos algarismos vão actualizando consoante os cancelamentos. Sem hipótese ou alternativa alguma de viajar em outro transporte ou outro dia que não aquele (apanhava o avião no dia seguinte) limitei-me a acreditar que conseguiria saltar a lista de espera. O caso também não seria grave desde que pudesse pelo menos viajar no comboio, quer sem cama ou sem lugar. Haviam-me garantido que no mínimo de pé, poderia seguir, não sendo contudo aconselhável numa viagem de 17 horas e durante a noite (a noite nos comboios tem uma face um tanto sombria pelas peculiares personalidades que vão e vêm em a cada paragem).
Não consegui saltar da lista de espera, faltariam cerca de 20 cancelamentos para que eu tivesse o direito à minha cama.
Entrei no comboio e fui ter com o revisor. Pedi-lhe para me procurar um lugar (como me haviam dito para fazer uma vez que estando eu em WL não me foi atribuído lugar). O revisor diz-me que não podia estar no comboio, que uma vez não me tendo sido atribuído lugar, estaria ilegal. Fiquei assim a saber que estando em WL não posso sequer entrar no comboio.
O revisor sugere-me que saia na próxima estação e que compre um bilhete para a Segunda Classe. Sem alternativa, fi-lo. Cerca de 2 Eur por um bilhete de comboio para uma viagem de 17 horas (já com os atrasos).
A Segunda Classe é aquela a que quando o comboio chegava à estação e passava diante dos meus olhos eu pensava, “Coitadinhos, pior que sardinhas em lata”. Bancos com lugares para 4 levam em média 8 e dependendo da hora, podem-se acumular do lado de fora do comboio (janelas, porta, telhado – vale tudo).
Estava o meu destino traçado e eu, com receio de não me conseguir lá mover devido ao tamanho e peso da mochila de campismo, resolvi deixá-la na classe Sleeper onde me encontrava e partir depois mais descansado à aventura até à carruagem que me era destinada. Coloquei-a debaixo de um banco e prendi-a com um cadeado.
Consegui um lugar e 12 horas depois desde o início da aventura chega o comboio ao destino final – Mumbai – e parto eu contra a maré de gente em busca da carruagem onde havia deixado a mochila. Não encontro a mochila, percorro uma e duas vezes mais, acelero o ritmo, volto a procurar, começo a ficar nervoso e a pensar no conteúdo da mochila. O meu computador portátil – um Macbook Pro – entre algumas outras coisas de valor e outras importantes como o meu bilhete de identidade e dois cartões de crédito.
A mochila desapareceu e nem o cadeado ficou. Em instantes o comboio já se encontrava completamente vazio e eu desesperava. Fui directo ao posto de polícia da estação e contei a minha história. “Locks are for gentlemen, not for thiefs”, diz-me o simpático polícia. Decido apresentar queixa mas precisava de determinados dados tais como o nr. de série do computador para que a declaração pudesse surtir efeito algum.
Procuro por um lugar com internet por forma a obter esses dados e quando volto, o simpático polícia já havia terminado o turno e restavam-me dois polícias que não dominavam de forma alguma o inglês.
Faltavam-me algumas horas para apanhar o avião, a perda da mochila já era desgraça suficiente, a perda de um avião na Índia com consequente perda da ligação em Londres não era de forma alguma algo que gostaria de acrescentar.
Os srs. Polícias além de não compreenderem inglês, eram lentos e – naquele momento – insuportávelmente divertidos. Foi com muito esforço e paciência que por fim consigo concluir a denúncia detalhando todo o conteúdo da mochila e acontecido. Não sabia onde me haviam roubado a mochila, poderia ter desaparecido durante a noite em qualquer uma das 10 estações por onde o comboio passou naquela extensão de centenas de quilómetros. O caso estaria mesmo perdido mas tinha ainda a esperança de que registando o nr. de série do computador na polícia, o mesmo um dia aparecesse e com ele os restantes itens.
Quando por fim se dá por terminada a minha declaração na polícia e conto 2 horas para a partida do avião eis que ouço pela pessoa do sr. polícia: “Ok. Now you go to the police station and do this again”. – “…WHAT?!”
Acabava de ter perdido inútilmente o meu tempo no posto de polícia da estação de comboio que apenas servia para registar o ocorrido nos livros da estação. Nada mais.
A correr procuro o posto de polícia mais próximo, entro ofegante , explico a minha situação e com a rapidez que lhes era possível preenchem o formulário e escrevem a minha declaração. Poucos minutos faltavam para que se fechasse o check-in, a declaração é impressa e finamente carimbada, saio a correr e consigo um taxista que vai a todo o gás ignorando qualquer sinal de trânsito ou sonoro. Várias oportunidades de acidente depois chego finalmente ao aeroporto e voo em direcção ao check-in. Fechado! Havia fechado fazia nem 10 minutos. A porta de embarque ainda estava aberta e aberta esteve por 30 minutos e não me fizeram o check-in. Insisti, pressionei, berrei. Não tinha bagagem de porão, não tinha nada, somente o que tinha no corpo e uma pequena mochila. E o avião partiu.
Após alguma pressão expondo o que me estava a acontecer naquele dia, a companhia aérea ofereceu-me um voo para o dia seguinte. Não tive pelo menos que comprar um novo voo para Londres, mas tive que comprar de Londres para Portugal.
Aproveitei a tarde para comprar uns calções e um casaco já que não tinha mais nada que não um par de sandálias, um lunghi (veste tradicional nas praias do sul que consiste num pedaço de pano enrolado à volta da cintura) e uma t-shirt sem mangas. Não queria juntar ao rol de acontecimentos um aterrar em Londres e Portugal com somente o que tinha no corpo nas baixas temperaturas que se faziam sentir. Não consegui mesmo assim mais que uns calções e um fino casaco e não esquecerei o dia em que caminhei em direcção a casa na baixa do Porto ás 9h da manhã em pleno Fevereiro de sandálias e calções e t-shirt aberta com parte do peito à mostra e com a pele bastante torradinha. Aos olhos de quem me observava, o cenário em que me encontrava não era de todo o que mais sentido faria.

Consciencializado da minha perda de enorme valor, a vida continuou.

3 ou 4 dias após estar em Portugal, eis que para minha estupefacta surpresa recebo um estranhíssimo email:
“we found your luggage, please contact this number for more details”.
Fiquei por alguns instantes a tentar decifrar aquilo, não conseguia deixar de o relacionar com o roubo na Índia mas: eu não dei o meu email a ninguém….!
Telefonei, encontraram a mochila! Descrevi a mochila e para meu espanto… estava lá tudo! Nada havia desaparecido!
– “Ok, can you please send it to me?”
– “Send? Where are you?”
– ” Portugal.”
– “Portugal?!”
– ” Yes.”
– “Ohhhhhh….”
– “Can you send?”
– “No Sir, not possible.”
– ” Sorry?”
– ” You need to come here.”
– “But… but… I am in Portugal!!!”

E entro numa nova fase deste resgate da minha mochila.
A mochila estava em Ratnagiri, a meio da viagem que havia feito de comboio. Estava ao cuidado do Inspector da Polícia que não me enviava a mochila. Ratnagiri, embora perto de Goa, ficava no estado de Maharashtra. Contactei a embaixada Portuguesa em Goa para me ajudar na situação. Não podiam fazer nada pois embora a mochila se encontra-se a apenas 5 horas de lá, estava fora da jurisdição deles. A polícia de Ratnagiri não enviava a mochila para a embaixada de Goa. Peço à Polícia de Goa para contactar a polícia de Ratnagiri por forma a estes lhes enviarem a mochila. Não, teria sempre que ser pessoalmente. Contacto nos meses seguintes amigos que andavam pela Índia a viajar, mas dada a localização e o sacrifício de 2 dias de viagem para quem lá perto andasse e milhares de km para quem mais afastado estivesse, nenhum conseguiu lá ir.
Em Junho telefono a confirmar se ainda lá estava tudo, estava.
Em Setembro volto a telefonar para dar sinal de vida e em como tenciono lá ir resgatá-la, atende uma senhora que não dominava o inglês e que nada mais sabia dizer além de “wrong number…wrong number”. Por momentos receei que o único contacto que possuía já não existisse. É passado o telefone para o inspector que insiste comigo para que eu insista com a embaixada para lá enviar alguém. Nada feito, a embaixada não me fazia o favor de enviar alguém a Ratnagiri (como obrigação, apenas a teriam se a mochila se encontrasse em Goa, logo, teria que ser um favor). Informo o inspector que vou em Janeiro. Responde-me com um “Ok…” reticente. Volto a contactar no final de Dezembro para fazer valer a minha intenção e a alegria foi mútua quando lhe disse que na semana seguinte estaria lá para finalmente resgatar a mochila. “Happy New Year 2011” deseja-me.

O mistério do email enviado quando eu não havia dado endereço algum a ninguém explicou-se depois: foi a revistar o conteúdo da mochila que encontraram um pacote com os meus cartões de visita que fiz durante essa viagem na Índia. Foi assim que chegaram até mim, caso contrário o conteúdo da mochila já estaria dividido em várias partes.
Quanto ao roubo, não foi um roubo, foi um desvio. Foi um funcionário que se encontrava no comboio e que achou que a mochila estaria perdida ou esquecida uma vez que não encontrou um dono nessa carruagem. De imediato quebrou o cadeado e a levou para a estação seguinte ao achado presumindo que eu (sabe-se lá de que forma) iria ficar a par da localização. Até hoje ter descoberto tal facto, sempre julguei que havia sido algum indiano que havia roubado e sido observado e apanhado nos postos de controle das estações uma vez que, um indiano com uma mochila de campismo sobressai imenso (até hoje nunca vi nenhum).

Acabado de chegar à Índia, apanhei poucas horas depois comboio para Ratnagiri para iniciar um resgate de 24 horas, desde o apanhar do comboio em Mumbai ao regresso a Mumbai. O conteúdo da mochila, embora misturado e poeirento, encontrava-se praticamente na sua totalidade. Faltaram as botas, o shawl e o cachecol para que tivesse sido perfeito – os objectos de maior valor sentimental e que juntamente com o saco cama, terão sido bastante úteis a alguém.
O inspector é um amor de pessoa assim como a restante equipa, imensamente felizes por eu finalmente ter conseguido lá chegar.
Pediu-me depois que escrevesse uma carta ao seu superior em Mumbai, em que contasse a história e tecesse elogios a si e à sua equipa, que referisse que um computador caro assim como o conteúdo da mochila permaneceu por 1 ano intacto à espera do seu dono e em como nada desapareceu. Assim o farei.
Por fim, chegou a vez das fotografias e como que a mostrar o feito, pediram-me para expor o material desaparecido em cima da mesa e tirar uma fotografia com eles.
E assim foi, um resgate com 1 ano e com uma probalidade muito baixa de se voltar a repetir com sucesso, pelo menos em qualquer outro lugar do Mundo que não este.

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